Chapter Summary
Tentando obter uma vantagem, Diana faz um favor para Cadu.
Quando saíram de lá, Diana foi até a nova casa de Jorge. Com muita insistência dela, Jorge conseguiu um espaço para Diana naquela casa; ela ficou com um quarto vago que funcionava como uma espécie de sala do zelador, mesmo sendo aquilo uma simples casa e não um apartamento. Após se familiarizarem com o local, Jorge e Diana observaram os móveis e a estrutura do local por cerca de duas horas e meia, sem ter muito o que fazer. No fim, ficaram fazendo nada num sofá de couro levemente datado, assistindo a coisas numa televisão de plasma de surpreendentes 60 polegadas. Estava realmente defasada, mas funcionava muito bem.
Mais tarde, Jorge lhe contou sobre um evento que aconteceria no mesmo palácio, onde Cadu assinaria seus primeiros decretos. Foi aí que ele entendeu a história de que Diana foi barrada na entrada — e nem tinha reparado nisso. Para levar Diana junto com ele, teve que ligar para Cadu e tentar um acordo, com a intenção de evitar um conflito sem sentido entre ela e Adelaide. Com a insistência de Diana, passou o telefone para ela depois de alguns momentos.
— Olha, eu tô falando, menino, deixa eu quebrar seu galho lá na hora-
— Você não tem coragem para isso.
— Tenho! Eu já falei, você assina seus decretos, e na hora, eu vou explicar eles, e mais nada. Mesmo que por hoje.
— Mas por que você e não outra pessoa?
— Porque, sim, uai! Aliás, eu acho que você não escolheu alguém, então… sei lá. Por que não?
Alguns momentos de silêncio. Logo, ele respondeu.
— Ok, eu te dou essa oportunidade. Mas você não acredita que ela vai ficar nervosa não?
— Sua irmã? Nada! Inclusive, deixei até um suco de caju para ela aqui em casa, ela vai amar — diz Diana, sem revelar a existência de laxante no suco.
— Tá bom, eu confio em você dessa vez. Só não exagera.
Diana, com um sorriso malicioso no rosto, entregou o telefone para Jorge. Ele, sem saber do que se tratava, ficou um pouco preocupado com a ideia de Adelaide ficar nervosa, mas decidiu confiar na amiga.
Vários minutos depois, os dois pegaram um táxi e chegaram novamente à sede do governo, onde viram uma multidão de jornalistas, entusiasmados com o que seria anunciado naquele dia — ou só esperando para que alguém falasse logo para eles irem embora. Lá, Diana encontrou um homem que já reconhecia: seu amigo Lucas. Ex-amigo, talvez — eles já foram mais próximos, mas isso era outra história que iria ficar para outro momento. E agora, ele era vice-governador. O mundo realmente dá voltas.
Ele, carregando alguns papéis, olhou-a com surpresa:
— Ah, então você veio.
— Quanto tempo que a gente não se vê, amigo?
— É, né...
— É. Cê pode me dar uma cópia das mudanças que seu chefe preparou?
— Por quê?
— Eu vou anunciá-las hoje.
— Ah, é? Legal. — ele a olhou com um olhar estranho, mas lhe dê um papel com as informações que ela precisava. — Só devolve depois, tá? Eu vou reutilizá-los depois.
— Pra quê?
— Não tem papel no banheiro da minha sala.
— Bem, tudo certo para mim.
— Ainda bem!
— Mais tarde eu converso com você. Temos muito o que falar, alienígena pervertido.
Ela riu. Ele tentou segurar o riso. Alguns segundos depois, eles seguiram caminhos opostos. Com isso, Diana decidiu ir a uma sala especial — uma sala de imprensa — para poder detalhar essas medidas. Ela calmamente sentou-se numa mesa (a única no local), e começou a ler as medidas.
— Bom dia, senhoras, senhores, membros da imprensa. Eu sou Diana Alves - não a Diana Alves da novela das sete, ninguém assiste aquilo - e estarei aqui anunciando algumas das medidas planejadas pelo governador e algumas que entrarão em vigor... — ela olha para um relógio no canto oposto da sala, onde indicava ser cerca de 15:30h. — Daqui a algumas horas. Enfim, vamos começar…
Os próximos 30 minutos foram de pura dor e sofrimento, com Diana anunciando as medidas de uma maneira tão erudita e entediante que ninguém estava mais prestando atenção. Alguns jornalistas tentavam questioná-la, mas ela os ignorou, e continuou anunciando as medidas categoricamente.
— …medida essa que também será analisada pelo painel determinado pelo secretário e… olha, parece que acabou. Nossa, foi tão rápido! Alguém tem dúvidas?
Aquele amontanhado de jornalistas continuaram a fazer perguntas, mas ela só olhou e riu.
— Então, eu acho que o nosso tempo aqui acabou, mas eu vou pedir pra minha assistente… qual o nome dela mesmo… enfim, anotar todas essas novas diretrizes. Mas já que ainda estamos aqui, vou aceitar uma pergunta… você, aí de trás?
Ela apontou para um homem que tinha no máximo 1,65 de altura. Com uma expressão confusa no rosto, ele levantou a mão e apontou para si mesmo.
— Sim, você com a gravata listrada.
— Eu sou Sebastian Prestes, da revista Voar do Leme. Bem, algumas dessas mudanças que você anunciou provavelmente serão todas derrubadas nos meios judiciais. O que você pensa sobre isso?
Diana olhou para o pequeno jornalista, que parecia ter no máximo 16 anos, e riu, como sempre.
— Seu “Bastião”, obrigado pela pergunta. Olha, eu tenho que admitir que essas medidas são, de fato, umas medidas corajosas… claro que parte da sociedade irá reclamar de tudo aqui, mas isso nós relevamos. Mas é isso, né? Governar é assim.
Ela olhou para os lados, tentando ver a reação dos jornalistas, e percebeu que uma das pessoas — acreditava ser um dos assistentes de Cadu — estava do outro lado da sala, acenando para ela parar. Com isso, ela entendeu rapidamente a mensagem — e decidiu encerrar aquele encontro.
— Mas não se preocupa não. Depois alguém pega seu número e a gente explica porque estaremos do lado das nossas medidas.
Os jornalistas começaram a se levantar — e Diana também, dando um sorriso malicioso.
— Meu tempo acabou aqui — ela olhou para um relógio que não existia em seu pulso. — Nos encontraremos algum dia, talvez. Está encerrada essa coletiva de imprensa.
Ela saiu da sala de imprensa, deixando alguns jornalistas confusos e tentando processar as medidas que tinham acabado de ouvir. Outros ficaram sentados em suas cadeiras, ainda dormindo de tanto sono que tiveram.
Quando acabou e saiu de lá, levou uma raquetada de Gregório, assistente do Cadu, que conhecia um pouco menos que os outros. Ele contou que ela não poderia falar contrariamente a uma medida do governo, mesmo que de leve. Diana não ligou muito; estava transparentemente não afim.
— Eu tenho o direito de brincar, tenho? Não tenho?
— C-cê tem, mas não desse jeito-
— Então você quer que eu faça o que então?
— Sei lá. Tire uns dias de férias ou algo assim.
Diana, nem boba nem nada, apenas riu da sugestão. Riu bastante, inclusive, tanto que até o pequeno Gregório se assustou.
— Olha, ninguém vai lembrar do que eu falei após uns três dias. Nós esquecemos as coisas facilmente. Isso foi só um serviço breve que eu fiz. O Cadu é meu amigo, mas apenas isso. Não vão aparecer uns oitenta jornalistas no meu apartamento querendo saber minha opinião em assunto tal. Eu particularmente acho que o povo vai gostar…
— Então por que você não ajuda de uma maneira mais positiva? Uma coisa é ser honesta, mas também tem que entender que aqui é uma sociedade e temos que trabalhar juntos-
— Pare aí — ela pôs o dedo perto da boca dele, e ele parou de falar. — Não vai não. Você não vai falar isso não. Nem tenta.
Gregório não resistiu. Após uns dez segundos, Diana tirou lentamente o dedo de perto e, sorrindo, continuou.
— Eu até posso, sei lá, ficar um tempinho mofando na minha casa ou passeando por aí. Se preferir, posso subir o morro mais próximo, levar um tiro, morrer, e ver do além a minha emissora favorita atingindo recorde negativo de audiência. Sabe o porquê? Porque ninguém vai ver mesmo. Você não tem coisa melhor pra fazer não?
— Hã?
— Ah, você está com esse olhar preocupado outra vez. Já disse, guarde esse fervor para outro momento, certo?
— Não entendo, Diana. Eu realmente não estou te entendendo.
— Então tá, não vou tocar no assunto mais. Só vou dizer o seguinte: não se preocupa, isso foi só por um dia, não se preocupa, tenha um bom dia.
Gregório a fitou por alguns segundos, o suficiente para confundi-la. Para ser sincera, nem ela entendeu o que havia falado segundos antes. Estava perdendo tempo.
— Olha… enfim. — ela entregou os papéis que tinha pegado antes com Lucas. — O Lucas disse que ele quer esses papéis mais tarde. Não sei bem pra quê…
— Hã… tá bom.
Ele olhou para os papéis brevemente, olhando algumas das medidas e frases de efeito que Diana tivera que usar pouco antes.
— Então… você vai ser a porta-voz do governo ou…?
— Não sei. Eu tô fazendo um favor, né? Ninguém foi selecionado, então eu me ofereci.
— Mas por quê?
— Porque… sim. Ué. Não tinha nada a fazer mesmo… ainda mais porque a donzela-mor, Adelaide, me proibiu de entrar na posse do seu chefe. Mas fazer o que…
Ele não a respondeu.
Diana saiu do Palácio Guanabara correndo como se estivesse sendo perseguida. Ela não queria responder mais perguntas incômodas para Gregório e seja lá quem estivesse por perto. Ela tinha rido demais naquele dia. E assim, aos solavancos, ela correu pela rua e se logo se viu, ofegante, na orla da praia de Botafogo.
A água não estava própria para banho. Talvez férias ali não fosse uma boa ideia. Pelo menos ela agora tinha alguma confiança de Cadu, o que facilitaria em tese seu trabalho.
Até lá, era só não levar um tiro.