Chapter Summary
Diana começa a suspeitar o governo de Cadu após ser barrada na inauguração do mesmo. Enquanto isso, Adelaide aproveita um dia.
Ainda naquele dia, Diana finalmente conseguiu chegar ao tal local misterioso onde Cadu iria trabalhar após uma série de acrobacias dignas de um filme de espionagem. Após ter comido sua coxinha numa lanchonete qualquer (inclusive, gostou muito da comida), conseguiu passar por alguns seguranças e pulou, com dificuldade, um muro que levava aos fundos do palácio. Denise, fofoqueira nata, lhe contou sobre o local de encontro. Achou interessante, inclusive, o fato de ela e seu irmão terem sido convidados. Claro, Jorge tinha ajudado na campanha, mas o que ela fez nos últimos três, quatro meses, além de agir como um dois de pau?
Não que ela tivesse feito algo para ajudar a campanha, claro, mas porque Denise conseguiu entrar e ela não? Talvez Adelaide e Denise tivessem virado grandes amigas de novo. Mas não sabia o que estava acontecendo, e começava a suspeitar de que tinha algo por trás das intenções de Cadu.
Já era cerca de 9h30 quando ela avistou uma pessoa, de longe, perto do que parecia ser uma casa na árvore. Ainda bem que tinha binóculos para essa ocasião.
— Não tinha um lugar mais reservado não? — questionava-se em sua mente. Por que diabos eles iriam se encontrar numa casa da árvore? Esse pessoal não sabia da existência de fotógrafos e jornalistas não? Nem fazia sentido assim. Só faltava esse pessoal brincar de esconde-esconde numa hora dessas…
Algum tempo depois ela viu essa mesma pessoa ser guiada por outra, subindo pelas escadas cuidadosamente localizadas na tal da árvore. Não sabia o porquê.
Ela esperou, esperou, e esperou atrás de um arbusto no muro para ver quando podia se aproximar. Após não notar nenhum movimento lá de dentro, a curiosidade tomou conta do seu corpo. Quando finalmente criou coragem de subir aquela árvore, chegou ao topo e… não encontrou nada além de uma sala de escritório. Limpa, chique, nada a ver com uma casa na árvore. Havia acontecido algo ali, mas não sabia o que.
Pegou uma surpresinha do seu bolso — um pequeno dispositivo — e colocou debaixo da mesa no centro daquele lugar. O dispositivo (ela o chamava carinhosamente de Bobert), seria o suficiente para ela conseguir escutar algo de interessante daquele lugar, caso alguém aparecesse ali. Olhando pelo resto da sala, ela encontrou debaixo da mesa alguns papéis, que provavelmente voaram até ali. Talvez eles tivessem caído de algum lugar, ou criado pernas e voado — as possibilidades eram muitas, mas Diana não focou nesse detalhe.
Os papéis, para sua surpresa, detalhavam uma lista de palavras que eles estariam proibidos de dizer. A palavra “pobre” era uma delas — foi trocada por “necessitados de baixa renda”, junto a uma série de outras palavras. Era até engraçado, porque eles nunca iriam usar essas novas palavras. Além disso, tinha uma lista de nomes que eles não poderiam citar em nenhum momento, o que Diana achou curioso. Havia vários nomes citados, de deputados à ex-presidentes à “inimigos da nação”. Não fazia sentido para um governo estadual, mas Cadu já estava jogando um jogo muito ruim de xadrez até então. Para sua sorte, ela não estava naquela lista. Mas ficou confusa com o conteúdo dos papéis.
— Não entendi nada — disse Diana, que entendeu nada. — Que gente maluca, insossa.
Tinha outra lista, já com os membros do gabinete. Era um número bem menor que os outros governos, pelo visto, mas estava quase toda preenchida. A única secretaria não preenchida não era bem uma secretaria — era o cargo de Porta-Voz do Governo.
Ela olhou os outros nomes por algum tempo, mas não viu nada muito interessante. Ainda assim, sentia que algo estava errado naquele lugar. Por que diabos todo mundo se encontrou ali? Seria que tinha algo a ver com Adelaide tê-la barrado da inauguração, como se ela fosse uma cachorra? Sem contar que, naquele quarto, ela se sentia como se estivesse vigiada. Com o coração acelerado, ela decidiu sair discretamente pelas escadas, como havia subido. Mas ao descer teve uma surpresa, uma de várias naquele dia, ao se deparar com um homem de terno preto e óculos escuros. E, como ela poderia imaginar, era um segurança do local.
— Senhora, esta é uma área particular. Eu preciso ver seu crachá — disse ele, com a voz firme.
Ela sabia que estava encrencada e precisava improvisar rápido.
— Crachá? Ai, meu Deus! Eu esqueci no meu iate! Ele é importado, sabia? Comprei ele lá em Bombaim… — tentou despistá-lo, com um sorriso nervoso no rosto e uma pose de modelo.
O segurança pareceu desconfiado, mas ainda assim insistiu:
— Ok senhora, mas eu ainda preciso do seu crachá.
Ela tentou se sair de outra maneira. — Claro, claro, com certeza. Olha, tá vendo aquele jacaré ali atrás?
O segurança franziu a testa, confuso. — Senhora, aqui não há jacarés.
— Tem sim, olha! — ela apontou para trás dele. — Dois olhos, cauda longa, pra mim é um jacaré! Ou crocodilo, sei lá, eu não sou bióloga. Os americanos chamam isso de alligator…
— Você não está me enrolando não?
Foi nessa hora que ela agiu rapidamente, usando toda sua força para dar um chute certeiro no ponto mais vulnerável do segurança, uma região delicada, fazendo-o cair no chão. Ela então saiu correndo, agradecida por não estar de salto alto. Correu até um amontanhado de árvores e se escondeu lá, sabendo que não poderia ficar ali por muito tempo. Seguindo seus instintos, tentou entrar discretamente no palácio, onde esperava encontrar seus amigos. Quando chegou a uma grande porta, ela não esperava o que aconteceu a seguir. Tombou de cara com uma pessoa que já conhecia: Jorge, que caiu igual a uma jaca madura no chão. Que doideira!
— Ai... Diana, o que você tá fazendo aqui? — perguntou Jorge, tentando-se levantar do chão.
Diana ajudou-o a se levantar e respondeu:
— Eu queria saber o porquê da sua grande amiga Adelaide não ter me deixado entrar.
— E não poderia fazer isso de uma maneira menos... ai... agressiva?
Diana suspirou e se desculpou:
— Foi um acidente! Sabe, às vezes nós temos que fazer escolhas difíceis. Eu voltei no tempo umas oito vezes já e em todas, eu acabo esbarrando em você.
— Bem, eu não precisava desse nono tombo…
— Enfim… eu não entendi aquilo, ela não me deixando entrar. Eu não aguento mais ficar indo de um lado para o outro atrás de respostas, achei que você sabia de algo.
— Tá bom, Diana, tá bom. Depois eu pergunto o porquê pra ela.
— Valeu. Aliás... você vai realmente morar naquela casa chique?
Jorge riu e respondeu:
— Chique? O banheiro tá manchado de sangue de no mínimo uns 10 anos atrás. Mas até que dá pro gasto.
— Tem espaço pra mais uma?
Os dois riram.
— Tá cheio.
— Não tem lugar pra eu ficar não?
— Você estaria disposta a dividir um quarto com outras três pessoas?
Ela pensou. — Claro. Cê acha que eu nunca fiz isso? Teve uma viagem minha à Praga onde eu fiquei num ônibus lotado…
Os dois riram e começaram a conversar sobre outros variados assuntos. Para evitar encontrar com o segurança abatido de antes, eles passearam por outras alas do palácio. Na saída, ela tentou ignorar o mesmo segurança, que estava vomitando numa lata de lixo inox. Coitada da lata.
Enquanto isso, logo após a inauguração, Adelaide, irmã de Cadu, aproveitava a sua nova vida de “famosa”. Todos estavam interessados em saber mais sobre ela e o seu irmão, e ela gostava disso. Ela sentia que as pessoas estavam interessadas em ouvir sua história, em ouvir o que ela tinha a dizer. E claro, estava se divertindo, com uma sensação de liberdade e poder que ela nunca havia experimentado antes.
Mas não demorou muito para a maré virar. No mesmo dia, Adelaide foi ao shopping estourar o limite de seu cartão de crédito, que dava direito a várias viagens pelo Brasil. Mas ela já estava cansada de Limeira, Bombinhas, e das outras cidades que não lhe interessavam mais. Ela queria algo mais emocionante. O que ela não esperava, mas era previsível, era a enxurrada de paparazzi e membros da imprensa, famintos por uma foto da sua bolsa que comprou por R$ 189,90.
Ela tentou se esconder em todas as lojas, mas os fotógrafos eram persistentes. Até mesmo a vendedora da loja de roupas em que ela havia entrado tentou ajudá-la, mas foi inútil. Eles a seguiram em cada passo que ela dava, como se ela fosse a última celebridade viva no planeta.
Enraivada, mas ainda assim escondendo suas emoções, ela tentou apelar para o lado humano deles:
— Gente, pelo amor de Deus, me deixem comprar em paz!
Não deixaram. Estavam mais famintos por uma foto dela — não literalmente, claro. Seria um pouco estranho se fosse o caso. A sensação de poder e liberdade que ela tinha sentido antes tinha virado um fardo pesado, e tão rápido! Antes que ela percebesse, estava sendo perseguida por uma multidão deles, desesperados por um clique.
No final do dia, ela voltou para sua casa, uma antiga casa de praia da família, com metade de uma torta na cara e se sentindo suja e imunda — especialmente após ter pisado em fezes de seja lá qual bicho fosse, justamente na porta de sua casa. As compras que ela fez não valeram muito a pena, e ela não se sentia tão bem assim. A última vez que teve um problema tão grave num shopping foi quando, anos antes, Jorge e um de seus amigos — que hoje estava empregado no governo — foram dar uma volta e assistir a um filme. Deu muito certo: ela teve que buscá-los, por volta das onze da noite, já que nenhum deles tinha dinheiro para voltar.
Inacreditável… mas ainda bem que ela gerenciava parte das contas da família.